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A coruja, na cultura grega, era vista como um símbolo da sabedoria. Ela era a ave de Atenas, deusa virgem da sabedoria (ou ave de Minerva, para os romanos) e a acompanhava em suas representações mais famosas.

As verdadeiras razões por trás dessa associação da ave à deusa se perderam no tempo, mas algumas boas explicações chegaram até nós. Uma primeira explicação que se fala é de que toda vez que uma divindade (lembrando que os gregos eram politeístas) aparecia representado com uma coruja ao seu lado, este deus era reconhecido com o portador da sabedoria. Isso acontecia porque a coruja é o animal que enxerga bem no escuro (olhos acurados), possui uma visão privilegiada em relação às demais espécies. Nesse sentido, como os filósofos consideravam a noite como o melhor momento do dia para poder realizar suas reflexões, a coruja passou a representar essa busca pelo saber que consegue enxergar melhor na escuridão. Quando os assuntos da comunidade estão com pouca luz (conhecimento), o filósofo seria aquele que conseguiria enxergar a verdade (como a coruja).

Outra explicação para essa relação se deve ao fato de que a coruja, por causa de sua constituição anatômica, consegue girar a sua cabeça em quase 360°, consegue praticamente olhar tudo e a todos que estão ao seu redor. Essa é uma característica tipicamente filosófica, pois o filósofo é aquele que procura analisar todos os pontos de vista sobre um assunto, consegue analisar racionalmente tudo o que está ao seu redor (em seus 360°). No fundo, essa é a pretensão da filosofia, conseguir chegar à verdade e analisar o mundo em todos os seus pontos de vista possíveis, em todos os seus ângulos, conseguir ver o que ninguém mais consegue ver, analisar a vida sob um aspecto que nunca ninguém tinha pensado até então.

Uma outra explicação para isso se deve ao fato de que a coruja é um animal que possui olhos arregalados, desproporcionais em relação ao seu corpo (assimétricos) e, por isso, ela seria um símbolo da feiura estética. Tanto é que nessa forma de explicar que nas línguas nórdicas antigas a coruja era chamada de “ugla”, palavra que tentava imitar o som que a ave fazia e que, essa palavra, seria o radical que originou outra palavra, o termo “ugly”, que em inglês possuiria o sentido de “feio”. Essa analogia é possível por conta de um estereótipo associado ao filósofo, um sujeito desarrumado, desajeitado, feio (do ponto de vista estético), que não se preocupa com as aparências, mas apenas com a busca da verdade e do intelecto. Esse estereótipo é corroborado pela descrição do grande filósofo chamado Sócrates, que em um dos escritos de Platão seu mais dedicado discípulo, é repreendido por um dos seus interlocutores a ponto d’ele falar para Sócrates que ele tinha que limpar o nariz (porque o nariz estava escorrendo) e que lhe faltava uma ama (mulher) para cuidar dele. Ou seja, é o típico sujeito feito e desajeitado que o estereótipo propõe.

Mas afinal, por que é importante nos reportar a essas simbologias que a coruja representa. Simples, porque a filosofia, com essas características da coruja, quer nos mostrar a urgência de formarmos uma geração de pessoas com capacidade crítica o suficiente para enxergar mesmo na escuridão, de modo que essa geração consiga enxergar aquilo que não está diante dos olhos, que consiga ver ao redor (aos lados, atrás), que faça esse movimento de enxergar e acolher todos os pontos de vista necessário, que seja treinado para ver aquilo que as pessoas não conseguem ver. Ainda que essa geração possa parecer um tanto desproporcional em relação ao mundo atual, é necessário ver além para podermos pensar uma sociedade mais justa,  mais fraterna, mais livre. A filosofia tem muito a nos dizer ainda hoje, mas é preciso educar as pessoas para conseguirem filosofar desde cedo. A criança é um filósofo por natureza: ela pergunta, questiona, busca a verdade sobre as coisas, não se cansa de questionar. Que nossa educação não mate essa capacidade inata de filosofar que nossas crianças possuem, ao contrário, que possamos estimular cada vez mais para que elas levantem voo sobre a região que o cerca para cumprir sua missão de enxergar acima de todas as coisas (aparências), por cima de todos os preconceitos que nos impedem de ver além do próprio nariz.

Prof. Antonio Djalma Braga Junior

Doutor em Filosofia

Assessor de formação docente Trilhas do Saber